Tche News

Angra 3: O Dilema de R$ 24 Bilhões entre Conclusão e Abandono

Estatal cobra governo por decisão de continuar obras de Angra 3 e bancar gastos de manutenção....

O futuro da Usina Nuclear Angra 3, um projeto que se arrasta há décadas no cenário energético brasileiro, encontra-se em um impasse financeiro e estratégico de proporções bilionárias. De acordo com informações reveladas pela Ministra da Gestão, a decisão crucial sobre a conclusão ou o abandono definitivo da obra implicará um custo idêntico de R$ 24 bilhões. O governo federal tem a tarefa de definir essa rota ainda neste semestre, em um veredito que moldará significativamente a matriz energética e fiscal do país.

Um Custo Equivalente para Destinos Opostos

A singularidade da situação de Angra 3 reside na equivalência dos custos associados a dois desfechos diametralmente opostos. A estimativa de R$ 24 bilhões abrange tanto o montante necessário para finalizar a construção e colocar a usina em operação, quanto o investimento para um descomissionamento completo e seguro, caso se opte por seu abandono. Essa paridade orçamentária adiciona uma camada de complexidade inédita à já desafiadora análise sobre o destino do empreendimento, forçando uma avaliação que transcende a mera equação financeira e se aprofunda em aspectos estratégicos e ambientais.

A cifra espelha não apenas os custos diretos de construção ou desativação, mas também os passivos e os investimentos já realizados, transformando-se em um ponto nodal para a tomada de decisão. O fato de que o mesmo valor pode ser empregado para dar vida ou sepultar o projeto levanta discussões profundas sobre o aproveitamento de recursos públicos e a visão de longo prazo para a geração de energia no Brasil.

A Longa Trajetória de Angra 3

Angra 3, localizada em Angra dos Reis (RJ), é a terceira usina nuclear do Brasil, concebida como parte de um ambicioso plano de expansão energética iniciado nos anos 1970. Sua construção teve início em 1984, mas foi paralisada por diversas vezes devido a fatores econômicos, ambientais e, mais recentemente, investigações relacionadas a escândalos de corrupção. O projeto, que já consumiu bilhões em investimentos, encontra-se hoje com cerca de 65% a 70% de sua estrutura concluída, porém inerte e gerando custos de manutenção sem produzir energia.

A interrupção prolongada da obra resultou em deterioração de equipamentos, custos adicionais para conservação e atualização tecnológica, além de um limbo regulatório e financeiro. Sua história é um microcosmo dos desafios e das interrupções que marcaram grandes infraestruturas no país, evidenciando a necessidade de uma resolução definitiva que defina o papel da energia nuclear no futuro brasileiro.

Prós e Contras dos Caminhos Possíveis

A conclusão de Angra 3 traria benefícios potenciais, como a diversificação da matriz energética com uma fonte de base, estável e de baixa emissão de carbono, fundamental para a segurança do suprimento elétrico. A usina poderia gerar cerca de 1.405 megawatts, contribuindo significativamente para o sistema interligado nacional e reduzindo a dependência de fontes intermitentes como a hídrica em períodos de seca, ou termelétricas mais poluentes.

Por outro lado, a continuidade do projeto enfrenta obstáculos como a percepção pública negativa em relação à segurança nuclear, os riscos inerentes à operação de uma usina e a necessidade de gestão de resíduos radioativos por milênios. A decisão de abandonar o empreendimento, embora signifique descartar os bilhões já investidos como 'custo afundado', evitaria riscos operacionais futuros e liberaria recursos para investimentos em outras fontes de energia ou áreas prioritárias do desenvolvimento nacional, embora com o custo da desativação da estrutura já existente.

A Urgência da Deliberação Governamental

A sinalização da Ministra da Gestão de que a decisão será tomada ainda no primeiro semestre deste ano sublinha a urgência do tema para a agenda governamental. A escolha não é meramente técnica ou financeira; ela envolve profundas implicações políticas, sociais e ambientais, e exigirá uma coordenação entre diferentes pastas, incluindo os Ministérios de Minas e Energia, Fazenda e o próprio Ministério da Gestão.

O prazo estabelecido reflete a necessidade de se resolver um passivo que onera os cofres públicos e impede um planejamento energético mais claro. A decisão final demandará uma análise criteriosa de todos os cenários, considerando a viabilidade técnica, o impacto ambiental, a aceitação social e a capacidade de investimento do Estado brasileiro em um contexto de restrições fiscais.

O futuro de Angra 3 é um dos maiores desafios energéticos e de infraestrutura que o Brasil enfrenta atualmente. A iminente deliberação do governo federal, seja pela ativação ou desativação definitiva, marcará um ponto de inflexão na história da usina nuclear e terá reverberações duradouras sobre a estratégia de desenvolvimento e a sustentabilidade da matriz energética do país. A sociedade aguarda ansiosamente a definição dessa questão que representa um custo substancial para as finanças públicas e um legado complexo para as futuras gerações.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br