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De Olhos Bem Fechados: A Desconstrução da Ilusão e as Fronteiras Invisíveis do Poder

Stanley Kubrick (Foto: Domínio público/Wikimedia Commons)

Stanley Kubrick, um dos cineastas mais influentes e enigmáticos da história, deixou-nos com uma obra final que serve como um testamento arrepiante à sua visão intransigente da condição humana. "De Olhos Bem Fechados" (Eyes Wide Shut), lançado postumamente em 1999, transcende o gênero de suspense psicológico para mergulhar nas profundezas de uma sociedade onde as aparências enganam e o poder opera em esferas invisíveis. O filme é uma exploração masterfully orquestrada da ilusão de controle e da frágil fronteira que separa a vida confortável do indivíduo 'ilustrado' das redes ocultas de privilégio e perversidade.

O Legado Final de Stanley Kubrick

Concebido e filmado ao longo de anos com o rigor meticuloso que se tornou a marca registrada de Kubrick, "De Olhos Bem Fechados" representa a culminação de temas recorrentes em sua filmografia. Desde a obsessão pela perfeição em "2001: Uma Odisseia no Espaço" até a desumanização em "Laranja Mecânica" e a fragilidade da sanidade em "O Iluminado", o diretor consistentemente desafiou o público a questionar a realidade. Sua última obra não é exceção, utilizando a psicanálise e o mistério para dissecar as estruturas de poder e as verdades inconvenientes que a sociedade prefere manter sob sigilo, envoltas em uma atmosfera onírica e claustrofóbica.

A Desilusão do Indivíduo Contemporâneo

O enredo segue o Dr. Bill Harford (interpretado por Tom Cruise), um médico de sucesso em Nova York, cuja vida aparentemente perfeita com sua esposa Alice (Nicole Kidman) é subitamente virada de cabeça para baixo. Uma confissão inesperada de Alice sobre fantasias sexuais serve como catalisador para a descida de Bill a um submundo secreto. Harford encarna o 'liberal ilustrado', um homem que acredita viver em um mundo de razão e ordem, até que a revelação de desejos ocultos – tanto dele quanto de sua esposa – o força a confrontar a fragilidade de sua percepção. Sua jornada noturna não é apenas física, mas uma odisseia psíquica que o leva a questionar a solidez de seu casamento, sua identidade e os alicerces de sua própria realidade.

As Fronteiras Invisíveis do Poder e da Perversidade

À medida que Bill se aventura pela noite de Manhattan, ele tropeça em um mundo oculto de rituais, orgias secretas e influência desmedida. Este reino clandestino, habitado por uma elite mascarada e anônima, simboliza as fronteiras invisíveis do poder – aquelas que operam à margem da moralidade comum, protegidas por riqueza e status. Kubrick revela uma teia de privilégio e impunidade, onde a transgressão é a norma e a perversidade se esconde sob véus de sofisticação e mistério. O que começa como uma busca por aventura ou vingança, transforma-se em um confronto aterrorizante com a extensão do controle que esses círculos secretos exercem sobre a vida das pessoas, culminando em ameaças veladas que ressoam com uma gravidade palpável.

O Simbolismo por Trás das Máscaras

As máscaras desempenham um papel central, não apenas conferindo anonimato aos participantes dos rituais, mas também servindo como uma metáfora para as fachadas que todos usamos. Elas obscurecem identidades, permitem a liberação de desejos reprimidos e simbolizam a despersonalização que acompanha a adesão a uma elite secreta. Sob a proteção do disfarce, a moralidade convencional é suspensa, e os indivíduos são livres para explorar seus impulsos mais sombrios, enquanto a hierarquia social se mantém, com o poder real residindo nas poucas figuras não mascaradas que observam e controlam os acontecimentos.

Reflexões Sobre o Desejo e a Realidade

"De Olhos Bem Fechados" é um estudo profundo sobre a natureza do desejo, da sexualidade e da fidelidade. O filme explora como os impulsos sexuais, tanto expressos quanto reprimidos, podem desvendar verdades incômodas e testar os limites dos relacionamentos. A jornada de Bill e Alice é uma meditação sobre a forma como a fantasia e a realidade se entrelaçam, e como a percepção individual pode ser facilmente manipulada ou distorcida. A linha final do filme, proferida por Alice, "devemos fazer amor", é um apelo complexo e ambíguo à intimidade como uma forma de reconstruir a confiança, ou talvez, como uma aceitação tácita da complexidade e das sombras que agora conhecem em sua união.

A obra final de Stanley Kubrick permanece um enigma perturbador, uma análise atemporal das tensões entre a vida doméstica e as forças ocultas que moldam nossa sociedade. "De Olhos Bem Fechados" nos convida a questionar o que se esconde sob a superfície polida da civilização, desafiando a noção de que conhecemos a verdade sobre aqueles que nos cercam ou sobre as instituições que nos governam. É um lembrete sombrio de que, por trás da fachada de normalidade, existe um mundo de poder e perversidade que muitas vezes preferimos não ver, preferindo manter os olhos bem fechados.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br